O que transforma alguém em um monstro: a própria natureza ou a forma como o mundo o recebe? Essa pergunta me acompanhou durante toda a leitura de Frankenstein, de Mary Shelley, e foi se aprofundando a cada capítulo, quase sem que eu percebesse.
Não foi a leitura mais fácil que já fiz. A linguagem, por ser antiga, exige mais atenção, mais calma, às vezes até um pequeno esforço de adaptação. Mesmo assim, gostei bastante do livro. Há algo nele que prende, que insiste, mesmo quando a leitura desacelera. É o tipo de obra que vai pedir um tempo, mas devolve isso em forma de reflexão.
O que mais me marcou foi perceber que a criatura não nasce monstruosa. Ela nasce vulnerável, à procura de algum tipo de acolhimento. O que a transforma é a rejeição contínua, o medo do outro, o abandono. Victor Frankenstein cria vida, mas não sustenta esse gesto, e é nesse silêncio que o livro começa a dizer muito. Sem apontar o dedo, Mary Shelley levanta questões profundas: até onde podemos ir em nome do conhecimento? O que acontece quando criamos algo e nos recusamos a assumir as consequências? Quem realmente carrega a culpa quando tudo dá errado?
Aos poucos, Frankenstein se afasta da ideia de uma história sobre ciência e se aproxima de algo muito mais humano. Fala de empatia negada, de solidão, de pertencimento. A ciência parece menos protagonista e mais um reflexo do desejo humano de ultrapassar limites sem medir o que vem depois.
Quando terminei o livro, fiquei com a sensação de que essa não é uma história que se encerra na última página. Ela permanece, provoca, pede conversa. Frankenstein não grita suas respostas, mas sussurra perguntas que continuam atuais, e talvez seja exatamente por isso que essa leitura, mesmo atravessando a barreira do tempo, seja tão necessária nos dias atuais, se tornando uma obra atemporal.






Uma resposta
Leitura sensível e muito bem construída. A reflexão sobre a rejeição como origem do monstro é forte e atual. Um texto que provoca e continua ecoando depois do fim