Noites Brancas – Fiódor Dostoiévski

Às vezes a gente pega um livro sem esperar nada demais, e termina com a sensação de que alguém colocou em palavras aquilo que a gente nunca soube explicar. Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski, é assim.

Pequeno, delicado e intenso, é o tipo de leitura perfeita para um fim de tarde, quando a luz começa a ficar mais suave e a gente também está mais vulnerável. A história se passa nas noites claras de São Petersburgo e acompanha um narrador solitário, um jovem sonhador que vive muito mais dentro da própria cabeça do que no mundo real. Não é difícil de se reconhecer um pouco nele.

Quando ele conhece Nástienka, algo muda. Não porque ele passa a viver um grande amor, mas porque, pela primeira vez, ele sente que está vivendo alguma coisa. A partir desse ponto, o livro começa a doer de um jeito bonito.

Dostoiévski nos faz encarar perguntas que a gente evita: será que amar alguém pode dar sentido à vida inteira, mesmo sem reciprocidade? Será que a solidão profunda faz com que qualquer gesto de afeto pareça grandioso? E, principalmente: ser intenso é uma qualidade ou uma armadilha?

O que mais me toca em Noites Brancas é que o protagonista não é ridicularizado por sentir demais. Ele é humano. Ele idealiza, cria expectativas, se entrega rápido. Ele quer ser visto. Quem nunca? A dor dele é silenciosa. É aquela dor de perceber que você viveu algo enorme… mas talvez tenha sido enorme só para você.

Diferente de obras mais densas do autor, como Crime e Castigo, aqui não há grandes conflitos externos. O embate é interno: sonho versus realidade. Expectativa versus verdade. E o despertar vem com aquela sensação amarga de que, às vezes, a fantasia era mais confortável do que o mundo real.

É um livro sobre amor, sim. Mas também é sobre solidão. Sobre idealização. Sobre a necessidade quase desesperada de conexão. Sobre como alguns de nós sentem tudo com uma intensidade que machuca.

Talvez Noites Brancas seja especialmente para os românticos incuráveis. Para quem já confundiu atenção com amor. Para quem já acreditou que um encontro breve poderia mudar tudo. Para quem já criou, sozinho, uma história inteira.

E, ainda assim, eu termino a leitura com uma estranha ternura. Porque Dostoiévski parece nos dizer que, mesmo que tenha durado pouco, mesmo que não tenha sido correspondido, o sentimento foi verdadeiro. Pelo menos para quem sentiu.

E às vezes (só às vezes) isso já é o bastante.

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A Criadora do Universo

Brenda Dutra

Direito & Biblioteconomia

Entre leis e livros, organizo o conhecimento e defendo histórias.

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