Em Defesa de Jacob – William Landay

Em Defesa de Jacob é aquele livro que parece entender muito bem o que o leitor espera dele, e o autor brinca com isso o tempo todo. A história avança com a impressão de que está indo com segurança para um final que vai colocar tudo no lugar. A cada capítulo, fica a sensação de que, em algum momento, as respostas vão aparecer quase sozinhas. Mas isso não acontece. E, olhando com calma, talvez nunca tenha sido essa a proposta.

A escrita de William Landay é tranquila e observadora. Ele passa bastante tempo no julgamento, e faz isso de um jeito que soa real, crível. Não é um thriller para ler no automático, pulando páginas só para saber o que vem depois. É uma leitura que pede atenção, que exige acompanhar os argumentos, perceber as nuances, reparar também no que não é dito.

Por isso, não dá para chamar o livro de “farofa”. O suspense não está apenas no crime, mas em tudo o que vai se acumulando ao redor dele. Landay parece menos interessado em entregar uma resposta definitiva e mais em mostrar como a dúvida nasce e vai se espalhando. Como ela corrói uma família, afeta um casamento e muda, pouco a pouco, a forma como um pai enxerga o próprio filho.

E esse pai é o centro de tudo. É através dele que a história nos chega filtrada por amor, medo e uma necessidade quase instintiva de acreditar. Ele narra, justifica, organiza os fatos, mas acaba revelando o quanto já está emocionalmente envolvido com uma versão específica da história. Em vários momentos, o leitor percebe que está sendo puxado para esse mesmo lugar, acreditando junto com ele, mesmo sabendo que talvez não seja tão simples assim.

Quando o final chega, ele segue essa lógica até o fim. É ambíguo, e pode frustrar quem esperava uma conclusão mais clara. Dá mesmo a sensação de que tudo caminhava para uma resolução natural, quase inevitável e, de repente, o autor recua e deixa o leitor sozinho com suas próprias interpretações.

Talvez o final pudesse ter sido outro. Ainda assim, ele conversa com tudo o que o livro constrói desde o início: dúvidas, hipóteses, desconfortos e a recusa em oferecer respostas fáceis. Em Defesa de Jacob é um thriller mais inteligente, que exige envolvimento e atenção, e que confia que o leitor vai continuar pensando nele mesmo depois de terminar a leitura.

No fim, a pergunta que fica não é apenas se Jacob é culpado ou inocente, mas até onde conseguimos enxergar a verdade quando ela ameaça justamente aquilo que mais queremos proteger.

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A Criadora do Universo

Brenda Dutra

Direito & Biblioteconomia

Entre leis e livros, organizo o conhecimento e defendo histórias.

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