Carta ao Pai – Franz Kafka

Carta ao Pai, do Franz Kafka, parece ser exatamente aquilo que você espera. Uma carta longa, um desabafo, algo mais íntimo do que literário. Mas não demorou muito para eu perceber que essa leitura não seria nada confortável, e muito menos distante. Existe algo de assustador na forma como a gente se reconhece no que o Kafka escreve, mesmo quando a nossa história não é exatamente a dele.

Kafka fala do pai, obviamente. Mas o que ele escreve não fica preso nisso. Ele fala de medo. De se sentir pequeno. De crescer tentando acertar e nunca conseguindo. De viver com a sensação constante de que você está falhando em algo, mesmo sem saber exatamente no quê. E a pior parte é perceber o quanto isso pode ser familiar.

Teve partes em que eu precisei parar. Fechar o livro, olhar pro nada e pensar: “ok, isso aqui doeu mais do que eu esperava”. Não porque seja um texto difícil ao extremo, mas porque ele é honesto demais. Kafka não se protege, não suaviza, não tenta parecer melhor do que foi. Ele mostra como aquela relação o atravessou e moldou quem ele se tornou: inseguro, autocobrável, sempre se sentindo deslocado. E é impossível não se reconhecer um pouco nisso.

Talvez você não se identifique com a figura do pai. Tudo bem. Às vezes essa identificação vem de outro lugar: alguém que tinha poder sobre você, alguém que deveria acolher e não acolheu. Carta ao Pai acaba falando sobre isso também, sobre relações que deixam marcas silenciosas, daquelas que a gente carrega sem perceber.

Não é um livro que consola de forma óbvia. Kafka não oferece soluções, não fecha feridas, não faz as pazes. Ele apenas escreve. Mas, estranhamente, isso já é muito. Para quem se identifica, existe um tipo de conforto em perceber que essa dor não é isolada, que alguém conseguiu colocar em palavras aquilo que a gente nunca soube explicar. Para quem não se identifica, o livro abre espaço para algo igualmente importante: escutar.

Quando terminei a leitura, não senti vontade de comentar com alguém na hora. Fiquei quieta. Pensativa. Esse é o tipo de livro que, apesar da história não ser sua, fica estranhamente pessoal. Não é sobre gostar ou não gostar. É sobre se sentir em paz com feridas antigas. Não é uma leitura fácil, mas é necessária.

Alguns livros não servem para explicar o que sentimos, eles apenas provam que nunca estivemos sozinhos sentindo.

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A Criadora do Universo

Brenda Dutra

Direito & Biblioteconomia

Entre leis e livros, organizo o conhecimento e defendo histórias.

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