Cartas de Amor aos Mortos é um romance epistolar contemporâneo que, à primeira vista, pode parecer só mais um livro voltado ao público adolescente. Eu admito que pensei isso no começo. Mas, conforme a leitura avança, fica difícil manter esse olhar superficial. Ava Dellaira constrói uma narrativa sensível sobre luto, identidade e amadurecimento emocional, usando uma forma pouco comum: cartas escritas para pessoas famosas que já morreram.
Laurel, a protagonista, começa escrevendo essas cartas como parte de um trabalho escolar. Kurt Cobain, Janis Joplin, Amy Winehouse (nomes que carregam histórias marcadas por talento, dor e morte precoce). Só que, rapidamente, essas cartas deixam de ser um exercício escolar e se tornam um espaço íntimo de confissão. É ali que Laurel se permite existir de verdade. Entre uma carta e outra, vamos conhecendo fragmentos da sua rotina, suas inseguranças, seus afetos e, principalmente, sua tentativa de lidar com a morte da irmã mais velha, May.
O luto, no livro, não é tratado como algo organizado ou previsível. Ele aparece de forma silenciosa, às vezes até discreta demais. Laurel não sofre apenas pela ausência da irmã, mas também pela forma como passa a lembrar dela. May se transforma em uma presença quase intocável, como se a morte tivesse apagado qualquer imperfeição. E isso é muito comum na vida real. Quando alguém morre, é comum que a gente se agarre às melhores partes, como se reconhecer as falhas fosse desrespeito ou culpa.
Ao longo da história, fica claro que Laurel tinha May como seu maior exemplo de pessoa. Depois da morte, essa admiração cresce ainda mais, até virar um peso. A imagem idealizada da irmã começa a interferir na forma como Laurel se enxerga e se permite viver. O livro trata disso com cuidado, sugerindo que separar quem a pessoa foi de quem a gente gostaria que ela tivesse sido também faz parte do processo de seguir em frente. Aceitar a imperfeição de quem morreu não nos torna insensíveis, é sinal de aceitação.
Mesmo com uma linguagem simples e situações típicas da adolescência, Cartas de Amor aos Mortos não se limita a esse rótulo. Ele faz perguntas maduras sobre memória, perda e identidade sem precisar ser pesado. É uma história que aquece o coração, mas deixa um incômodo sútil.
Em síntese, é uma leitura leve, sensível e tocante, que vai além da estética jovem para falar de temas universais. Um livro que não é apenas sobre a morte, mas também sobre como ficam as pessoas que passam pelo luto. Sobre as idealizações que criamos para suportar a dor. E sobre esse caminho delicado de entender que amar alguém não significa torná-lo perfeito, nem mesmo depois que a vida acaba.






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Incrível